A pérola prova que continua sendo objeto de desejo entre mulheres de todas as idades

“Uma ostra feliz não faz pérola.” Essa afirmação, tão curiosa quanto verdadeira e que dá nome a um livro de Rubem Alves, define bem a dualidade dessas gemas milenares. Descobertas na pré-história, elas fascinam pela raridade – se deixadas aos caprichos da natureza, de cada 3 toneladas de ostras, saem apenas três ou quatro gemas. Isso porque a pérola é uma espécie de cicatriz da concha. Cada vez que o molusco que ali habita é invadido por um corpo estranho, ele secreta o nácar, substância que, depositada sobre o invasor, cristaliza-se rapidamente, neutralizando o agressor. Com o tempo, as camadas de nácar se sobrepõem umas às outras, dando origem às preciosas bolinhas. As perfeitamente esféricas, consideradas as mais valiosas, só se formam quando o intruso é totalmente recoberto, o que faz com que a secreção seja distribuída de maneira uniforme, o que é uma raridade.

Diferentemente das pedras preciosas, a pérola é perfeita au naturel. Não é preciso lapidá-la ou esculpi-la para utilizar na joalheria. A única gema de origem animal que encantou nobres e plebeus ao longo da história. Dizem que Cleópatra dissolveu pérolas em uma taça de vinho para provar o poder e a riqueza de seu império em um jantar oferecido ao imperador Marco Antônio. Durante o Império Romano, o general Vitellius teria financiado um exército vendendo apenas um dos brincos de pérola de sua mãe. Na Basílica de San Vitale, em Ravena, Itália, Teodora, esposa do imperador Justiniano, é retratada coberta de pérolas em mosaicos do século 6.

“No mar Mediterrâneo, elas sempre foram extraídas e utilizadas principalmente na ourivesaria religiosa”, conta Mario Pantalena, joalheiro de origem italiana e fã declarado dessas gemas. “Mas vieram do Oriente, trazidas pelos mercadores, as pérolas mais bonitas, que atraíam todos na Europa”, explica. No século 17, os flamengos da Idade de Ouro holandesa retrataram a onipresença das pérolas nas joias da época, como as vistas nas obras de Rembrandt e Vermeer. Tamanha preferência tinha uma razão de ser: além da raridade, a definição suprema do luxo, seu brilho natural dispensava a lapidação, método ainda ineficaz na época.

Joias de laboratório

Hoje, as pérolas naturais representam menos de 3% da produção mundial. As demais são cultivadas em formas e tamanhos variados. O primeiro registro da tentativa de criar uma pérola artificial foi do biólogo sueco Carl von Linné, em 1761. A ideia era simular o processo de intrusão do corpo estranho na ostra – e funcionou. O sucesso do experimento lhe valeu um título de nobreza, mas foram necessários alguns séculos para que o processo se tornasse uma praxe. No começo do século 20, o japonês Kokichi Mikimoto patenteou o método mais difundido, em que são introduzidas sementes de diversas origens no molusco, que se encarrega de cobri-las com camadas sucessivas de nácar.

Perola (1) Perola (2) Perola (3)

As pérolas cultivadas provocaram uma reviravolta no sistema de avaliação. Em uma história lendária, conta-se que Pierre Cartier comprou a mansão que hoje abriga a sede da joalheria homônima na Quinta Avenida, em Nova York, com um colar de duas voltas de pérolas naturais. O que em 1917 valia 1 milhão de dólares 40 anos mais tarde foi vendido por 151 mil dólares.

O duque Dmitri Pavlovich, descendente do império dos Romanov, mudou por acaso o rumo da história das pérolas no início da década de 1920. Para impressionar a amante, 11 anos mais velha, presenteou-a com uma joia de família – um colar de pérolas de seis voltas. O nome da eleita: Coco Chanel. A partir daí, as gemas ganharam a conotação de acessório fashion. Hoje as pérolas da maison transitam por duas vertentes, igualmente importantes: os colares da linha fashion, com contas delicadamente moldadas a mão por experts na arte das bijoux, e as pérolas de fato, que acompanham diamantes e outras pedras preciosas na alta joalheria. Na coleção de verão 2012, inspirada no fundo do mar, Karl Lagerfeld trouxe versões renovadas em arranjos de cabelo, além do icônico colar.

Graças a Chanel, as longas voltas de pérolas caíram no gosto da bailarina Josephine Baker, contemporânea da estilista, que provocou rebuliço ao adotar um colar como único figurino de seus shows. Depois, foi a vez de as estrelas de Hollywood se renderem ao poder das pérolas. Marilyn Monroe garantiu o aval do star system para a versão cultivada de Mikimoto ao desfilar uma sexy gargantilha, que ganhara de presente do marido, Joe Di Maggio. Em um dos figurinos mais cultuados da história do cinema, Hubert de Givenchy vestiu Holly Golightly, personagem de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, com um longo preto e poderosas voltas de pérolas. Senhora de alguma das melhores joias dos red carpets, Liz Taylor tinha particular afeição por La Peregrina, pérola do século 16 que coroava o colar Cartier, presente de Richard Burton, com quem se casou duas vezes. Em 2011, com a morte da atriz, a joia alcançou a incrível marca de 11,5 milhões de dólares em um leilão.

Entre as novidades nos processos de produção, destaque para as gemas em forma de moeda, a nova paixão da designer italiana Francesca Romana Diana. “Elas crescem em águas salobras, onde o rio encontra o mar. O núcleo introduzido no molusco é em forma de moeda. Cada pérola demora de seis a sete anos para se formar”, explica. A variação de cores é resultado de um tingimento meticuloso, que pode demorar até 25 dias e é feito após a extração. Os fornecedores fazem segredo sobre o país de origem da novidade. “Sempre adorei pérolas. Hoje, meninas de 20 e poucos anos as usam sem problema. O que importa é a atitude”, afirma o designer Pantalena, que assina com a blogueira Lala Rudge uma linha adorada pela nova geração de it-girls – repleta de pérolas, bien sûr.

Fonte: www.elle.com.br

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